Entrevista a Marcelo Branco, do Futebol ao Bodyboard

Entrevista Marcelo Branco

Entrevista a Marcelo Branco, um homem apaixonado por desporto que acabou por descobrir o Bodyboard quase por acaso. Fez desse encontro um percurso, formou um núcleo e é atualmente presidente da AquaCarca.

Conversamos com ele sobre a sua visão e objetivos para o clube. 

  1. Como foi o teu percurso na AquaCarca, desde o início até seres o presidente hoje.

Eu sempre joguei futebol federado de competição, e fiz todos os percursos. Nos séniores percebi que não ia ter tempo de conjugar tudo com a faculdade e que o futebol não ia ser uma opção de carreira. Então decidi procurar outro desporto. Encontrei a Nova Onda e comecei a fazer aulas de Bodyboard com o Bernardo. 

E depois comecei a apreciar o estilo de vida! Eu sempre gostei de trabalhar com jovens, tenho um bichinho para treinar ou ensinar, e  achei piada à vida do Bernardo, ser treinador. Então comecei a oferecer-me para ajudá-lo nos treinos de fim de semana. 

Gostei imenso da experiência, fez-me sentir parte de um novo grupo e de uma comunidade que me estava a dar gozo conhecer. 

Com o tempo, comecei a ouvir falar da AquaCarca, sabia que existia mas não percebia muito bem o que era.

Entretanto no último ano de faculdade, fiz o meu projeto de fim de curso, que  era criar a Jovem Academia em papel: criar um plano de negócios, tentar simular tudo ao máximo.

Simulei o conceito, tinha um espaço perto da praia, e tinha a minha parceria desportiva que era o Bernardo.

Ao mesmo tempo que estava na faculdade, para pagar as minhas contas dava apoio escolar numa escola primária. Como fazia bodyboard e dava este apoio comecei a juntar as duas coisas. Fazia parcerias com a escola primária e com os campos de férias do Bernardo para os miúdos não estarem só com a parte da escola, achava isso muito pouco, e que ficavam muito tempo fechados sem fazer desporto. Então comecei a criar uma dinâmica com essa escola e correu muito bem.

Pensei muito nisso, de facto os ATLs eram todos muito virados para o estudo e tpcs e os miúdos não se divertiam ou não tinham tempo para brincar. Também percebi que existe esta necessidade no mercado em que os pais precisam imenso de alguém que vá buscar os miúdos à escola e que lhes dê apoio escolar.

Então, falei com o Bernardo sobre esta ideia e ele falou me da AquaCarca. Disse que eu podia funcionar como núcleo, pertencer ao clube. Depois conheci o Luís e a Catarina e apresentei a proposta. Comecei a cumprir com aquilo que eles me pediam e a lançar o meu projeto, não estava ali só para ter o meu negócio, era mesmo para tentar montar um clube. Isso me fascinou-me.

E a partir daí levei aquilo muito a sério. Pensei em como é que poderia, a partir do meu núcleo, fazer da Aquacarca mais clube.

Apresentei esta ideia à direção:  fazermos uma Taça de Portugal mas com um símbolo mais forte do que a que existia, com uma imagem de clube que nos faltava. E não ser aquela coisa de à ultima da hora convocar os atletas.

Queria que a taça de Portugal não fosse só para os que tinham conseguido melhor pontuação nesse ano competitivo, fosse também para quem tivesse mais a sentir o clube e com outros valores a isso associados.

Achei que poderíamos inverter isso, fazendo um arraial, fazendo uma   coisa mais por merecimento: quem é que ajudava mais, quem se esforçava mais na escola e etc. 

A pouco e pouco começámos a fazer arraiais, galas, dias do sócio…tínhamos assim algumas âncoras que durante o ano já davam mais imagem do que é o clube.

Há dois anos cheguei a presidente, porque meti na minha cabeça que queria lutar por uma sede para o clube para estarmos num espaço 100%  nosso.

Foi mais ao menos assim o meu percurso no clube, até agora.

2. O que é, para ti, a Aquacarca e qual o seu conceito?

Cada vez mais percebemos que queremos que a AquaCarca seja uma estrutura de apoio aos núcleos, que os consiga fortalecer. Uma estrutura que potencia os atletas, os jovens, os alunos. Que eles sintam que se precisarem podem contar com o clube,com espaços, contactos, ferramentas…

É como se fosse uma ilha, um ponto de partida para ajudar o jovem. Foi como no meu caso, apresentei ao clube o meu projeto da Jovem Academia e o clube ajudou-me! Hoje em dia acho que ainda tem mais capacidade de apoiar qualquer projeto ou sonho que um jovem queira seguir ou concretizar.

Resumindo é criar uma estrutura ou rede de apoio dos jovens, atletas, alunos e os próprios núcleos, para cada um poder chegar mais longe.

3.Consideras que o máximo potencial do clube ainda está por atingir?

Acreditamos que ainda há muito a fazer. Temos um objetivo, mas a vida é tão dinâmica hoje em dia que ao focarmo-nos demasiado num só objetivo acabamos por nos fechar a outras oportunidades mais interessantes.

Notamos muita diferença num espaço de cinco anos, os miúdos estão a crescer, as suas prioridades e interesses mudam.

Começamos a ver também o que é que é importante para as famílias. 

Sermos muito ambiciosos também transmite uma ideia errada ao jovem de que a única importância da vida é ter resultados, e também importa estar bem, ter tempo para a família, para diversão, etc.

Portanto ser uma coisa tranquila, mas estável, para as coisas acontecerem e serem feitas com gosto.

Posso dizer que nos falta um espaço e uma entidade física como clube. Um lugar com recepção, a nossa secretaria, o café do clube, espaço para os atletas e os alunos poderem estar e passar tempo.

Falta-nos ter mais eventos dedicados para os sócios.

Há um aspeto que ainda nos falta alcançar, que é termos as portas mais abertas e disponíveis para perceberem que podem vir ter connosco para apoio e que somos um suporte em qualquer área da vida dos jovens.

Queremos também abrir um programa de apoio, até financeiro, em que cada jovem possa apresentar a sua ideia e ter um apoio de uma empresa, ou de um CEO.

Há muita coisa a fazer, mas eu gosto mais de pensar positivo e não no “Falta tanto!”. Falta bastante, mas fico muito orgulhoso dos passinhos que já demos. 

4. Qual é o maior objetivo da Aquacarca? 

A chave é esta: sermos um clube que equilibra os jovens e que os ajuda sem os julgar. Que eles se sintam tão bem ao pé de nós que descubram ao nosso lado a sua essência, e façam a sua caminhada de forma tranquila. Que evoluam, que queiram ser cada vez melhores mas sem pressão, que tenham tempo.

Queremos dar um espírito de comunidade. O que um clube tem de giro é ligar as pessoas a partir de algo em comum. Aquilo que me ligou foi o mar, o bodyboard. Mas podem ser tantas outras coisas! Pode ser a localização, um local de estudo ou um talento em comum.

5. Qual o teu maior orgulho enquanto presidente do clube?

Gosto muito do espírito da taça de Portugal. Fico muito feliz de colocar o resultado de grupo à frente do individual. Adoro quando um atleta está dentro de água e está toda a gente na areia a apoiar. Apoiam os resultados, os projetos  e os sonhos do outro. 

O facto de jantarmos juntos, de conversarmos, deixa-me orgulhoso enquanto membro da equipa. Cada vez relativizamos mais o competir, e quase que é um pretexto para passarmos mais tempo juntos, conhecermo-nos melhor. 

As galas deixam-me orgulhoso. Ver tanta gente junta num jantar. O arraial é a mesma coisa.

Mas aquilo que me dá mais orgulho é ver um jovem a fazer algo não pela vontade de adquirir resultados mas pelo gosto e prazer que aquilo lhe causa, e acho que acontece bastante no nosso clube.

Pessoas que estão a surfar ou a competir com uma atitude tranquila porque o que lhes interessa é estar no mar e não propriamente ser o melhor. Ou por exemplo na escola, não colocarem tanta pressão no resultado final, mas sim no processo, na aprendizagem. Ver cada vez mais jovens a pensar assim marca-me.

6. O que faz uma boa equipa e o que faz da equipa da Aqua Carca única?

Somos uma boa equipa porque somos todos muito diferentes. E acho que crescemos imenso porque aceitamos essas diferenças e vemo-las como pontos fortes. É esta mistura de capacidades diferentes que nos torna um equipa com 100% de confiança uns nos outros.

Além disso, eu admiro muito os membros da equipa. Sou o elemento mais novo e ainda hoje ao trabalhar com eles sinto admiração. E penso que isso é algo que eles também constroem em relação a mim. São pessoas que eu considero referências na minha profissão, pela série de coisas que já conquistaram na vida.

Somos uma equipa que está muito alinhada naquilo que quer para o clube.

Além disso, achamos prioritário estarmos bem a nível mental, emocional, físico etc. para além de profissionalmente. E estamos a tentar passar estes valores para vocês, e para toda a comunidade.

7. De que maneira em especial contribui cada núcleo do clube para o fazer forte? (Nova Onda, Boogie Chicks, Soul surf e Jovem Academia)

O facto de cada núcleo ser especialista na sua área. Temos diferentes especialidades.

A Nova Onda, com o Bernardo, é a melhor em Portugal no Bodyboard masculino. A Catarina é a mesma coisa, com o Bodyboard feminino. O Filipe no surf, mais recentemente, também está muito focado na sua modalidade. A Jovem Academia concentra-se  no desenvolvimento pessoal.

É isto. Cada núcleo está especializado numa área, e quando juntos, o clube fica mais rico.

8.Que importância dás à associação do desporto ao clube? 

O desporto vai ser sempre a nossa base. Sem o desporto não há saúde. 

Estamos também a ir muito por aí com a Jovem Academia, que é o núcleo não desportivo: promovemos a atividade física mas nunca forçamos ou pressionamos ninguém a algum desporto específico só porque têm jeito ou porque queremos treinar campeões.

E a nível de convívio o desporto é importante no nosso clube porque acaba por ser um pretexto para fazer amizades, para estar em conjunto, para te reunires com os membros do clube, teres uma rede de contactos. 

Fazer desporto faz com que também estejas bem emocionalmente, e isso é muito importante para que uma pessoa esteja equilibrada, que é tudo o que queremos.

9.Porque é que a Aqua Carca se “encaixa” com os desportos aquáticos?

Temos uma localização que não podemos desperdiçar. Estamos a 1 minuto da praia. Não vale a pena tentarmos ser um grupo de padel, ou de pavilhão. 

É preciso ter este pequeno foco, aquilo em que vamos apostar sempre é o desporto ao ar livre, na praia. Ou seja, tudo o que seja aquático, ou de areia. 

10.Quando sentes maior união entre todos aqueles que pertencem à Aqua Carca?

Sinto maior união sempre que acaba um projeto de grupo. Por exemplo uma gala ou um arraial, uma Taça de Portugal ou um dia do sócio. Sempre que há esses momentos de equipa.

11.De que forma o teu trabalho, o da equipa e o dos membros do clube marca o seu crescimento? 

Em relação ao crescimento, eu acho que o facto de nos reunirmos todas as semanas sem exceção é o que torna o possível. 

A equipa está muito mais aberta às opiniões e críticas uns dos outros, a apontar os erros de cada um sem a pessoa levar a peito. Temos um à vontade muito maior para falar de erros, e isso faz com que não tenhamos tanto medo de arriscar. Faz com que queiramos trazer profissionais para o clube e expandir.

Temos muitas novidades que com a pandemia estamos a deixar na gaveta, mas estamos sempre a inovar e a querer seguir em frente!

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